Autor de projetos de revitalização afirma que atividade comercial e cultural impediu degradação maior do largo de São Sebastião.

Dr. Robério Braga
Robério dos Santos Pereira Braga, mestre em direito ambiental e autor de livros sobre patrimônio público, material e imaterial, afirmou, em entrevista ao BNC Amazonas, que a atividade econômica protege, até o momento, o largo de São Sebastião da decadência mais grave.
Robério marcou a sua vida de gestor público de forma mais forte na Secretaria de Estado da Cultura (SEC), no período de 1997 a 2017. Nesses 21 anos tentou estabelecer um ecossistema econômico e cultural no centro histórico de Manaus.
O centro histórico se estende da rua Leonardo Malcher para a margem do rio Negro e envolve o sítio histórico, cujas referências são o Teatro Amazonas, a igreja de São Sebastião, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, a praça da Saudade, o complexo portuário, a ilha de São Vicente, a avenida Eduardo Ribeiro, a praça do Congresso e o Instituto de Educação do Amazonas (IEA), erguido para ser o palácio do governo.
A proposta da SEC era restaurar e criar um corredor cultural-patrimonial-comercial entrelaçando as áreas mais tradicionais e históricas da cidade com atividades de cunho cultural.
Com isso, Manaus se tornaria uma cidade com patrimônio material e imaterial preservado, com atividades culturais para turistas e para a população local, de alto nível, gerando emprego e renda para artistas e outros agentes.
Entrevista
O que fizeram os gestores públicos para a Manaus antiga permanecer abandonada?
Esse era um centro urbano muito bem edificado, no final do século 19, seguiu assim no século 20 até 1970 com pequenas modificações.
De 1970 em diante, o estabelecimento das lojas da Zona Franca de Manaus, essa que foi a salvação do Amazonas, uma vantagem, porém com implicações à descaracterização da cidade.
Havia muitos imóveis nas mãos de poucas pessoas. E eles alugaram esses imóveis para lojas e bancos que descaracterizaram suas fachadas.
Nem os locatários sabiam que seu patrimônio valia muito mais que o do aluguel, se voltado para o desenvolvimento do turismo na cidade; os comerciantes, por sua vez, logo se voltaram para o comércio variado que depois acabou.
Isso prejudicou toda a unidade arquitetônica, modificando as fachadas e a paisagem urbana do centro da cidade.
Enquanto isso, o distrito industrial da ZFM se organizou para a produção de produtos de alta tecnologia e sustentar a nossa economia: telefones, computadores, geladeiras e televisores etc.
Então o município, também, não teve a iniciativa de preservar o patrimônio cultural edificado e a paisagem urbana tradicional da cidade como ativos econômicos?
O poder público não tinha sequer legislação adequada para defesa do patrimônio cultural, fizemos isso anos depois, e não havia equipes preparadas, não havia a compreensão atual do conceito de patrimônio cultural.
Prevalecia o conceito de patrimônio histórico que protegia os palácios e igrejas, sem considerar as ruas, a arborização, fachadas, os prédios conjugados, as coisas curiosas, como as casas construídas em formatos de borboleta, garça, carro e outras que não existem mais.
Mas, de todo modo, Manaus é a única cidade do mundo que é conhecida pelo seu teatro. Paris, não é o Opera; Rio de Janeiro, não é o Teatro Municipal; São Paulo, não é o Teatro Municipal; Porto Alegre, não é o Teatro São Pedro.
E nós somos conhecidos, mundialmente, pelo Teatro Amazonas.
Então, esse centro, primeiro foi decomposto, depois foi degradado e agora ele está arruinado. O centro vive hoje a sua pior fase, mas ainda pode vir uma pior, que é a da demolição pela demolição.
Dê exemplos, por favor
A casa onde morou Alfredo da Matta há oito anos ainda existia, mas de uma hora para outra foi vendida e simplesmente demolida. Era uma casa do ponto de vista arquitetônico totalmente diferente do que existe na cidade e que possuía um valor histórico inestimável.
No mínimo, merecia uma pesquisa de arqueologia histórica no lugar da casa, como fizemos ao redor da catedral.
O que ainda pode ser feito para a reocupação do centro como lugar de salvaguarda de memória da cidade?
Há muito que se pode fazer. Primeiro, amar a cidade; restabelecer os polos que foram feitos ao meu tempo de secretário da cultura (largo, praça da Polícia, praça do Congresso, praça dos remédios, catedral…; segundo, interligar esses polos com ações de restauro, reabilitação e ocupação de qualidade cultural e econômica; terceiro, retornar os órgãos públicos para o centro da cidade; e quarto, reocupar o centro com as residências e os gabinetes de trabalho, inclusive como solução de habitação popular.
Fizemos um projeto experimental nesse sentido: o sujeito mora atrás e trabalha na frente. São os casos do tradutor, do professor de inglês, do consertador de computador, do consertador de tênis, de loja de decoração, de artesanato, de pequenos serviços, da costureira, do alfaiate etc.
Esse projeto foi desenvolvido para viabilizar o monotrilho, que tinha uma interferência forte, sobretudo, na rua Itamaracá e na rua da Instalação, mas que redundaria na reabilitação de todas essas áreas.
Fizemos um projeto chamado Cartão Postal, no governo do Omar [Aziz, 2010-2014], que interligaria a avenida Eduardo Ribeiro, o largo da praça de São Sebastião e o bonde turístico, no centro da Eduardo Ribeiro e estendido até o porto.
A obra da avenida Eduardo Ribeiro foi parcialmente executada e logo deformada. Ela foi projetada, entretanto, para reabilitar o passeio, porque de tão importante para a cidade, ninguém dizia “vou à avenida Eduardo Ribeiro, dizia, simplesmente, “vou à avenida”.
Isso porque ela era usada para o passeio de fim de semana das famílias: era o lugar do carnaval de rua, da procissão, das brincadeiras de rua e das da quadra de São João. Eu participei de desfile escolar na avenida Eduardo Ribeiro nos anos 60.
Outra coisa: Manaus era uma cidade sem parques, mas foram criados os parques Jefferson Peres, do Mestre Chico, no governo do Eduardo [Braga], e do Rio Negro.
Isso foi feito pela Cultura [SEC] para interferir no conceito de vida da população, na qualidade de vida da cidade. Mas não os mantiveram preservados.
Mas o largo parece que sobrevive.
A grande vantagem do projeto do largo de São Sebastião – e o que o salva até agora – é a atividade econômica que, como não tem controle, orientação e medida, nem regulamentação, está sendo deformado pela má conservação, má iluminação, sem limpeza adequada, com sonorização desorganizada, com insegurança.
A insegurança é gerada pela falta de iluminação. A rua Marçal é esgoto a céu aberto porque está escura e não tem uso. Em resumo: falta de manutenção.

Aliás, o senhor foi muito criticado por privilegiar o retorno da ópera no Teatro Amazonas, um espetáculo que seria de gosto mais das elites…
Durante dez anos tive que responder a mesma pergunta: mas por que ópera, se o povo não vai entendê-la?
Ora, ópera é um circo antigo, um circo atual, a ópera é um grande teatro. Portanto, também um gênero artístico popular e de alta qualidade e de atração mundial para o turismo cultural.
Por que esses lugares entram em decrepitude?
Por falta de uso. Lembro-me que fiz um artigo sobre o Cabaré Chinelo, que estava abandonado e sob ameaça de cair. Mas lá existia um pequeno lupanar. Aí fiz o artigo “Penicilina não!”. Ou seja: não tirem as prostitutas dali, porque senão o prédio vai desabar. Eles [gestores] tiraram as prostitutas e o Chinelo desabou.
No governo do Amazonino [Mendes, já falecido], desapropriei o imóvel, paguei indenização, fiz o projeto de restauro e o entreguei ao município. Mas esse projeto, também, foi modificado no seu uso e objetivo e virou elefante branco.
Então, não temos tido sorte com as escolhas dos gestores da cidade?
Não é bem assim. O Amazonino assumiu a prefeitura e eu a Secretaria da Cultura, levei até ele um projeto de reurbanização do centro. Não se tratava de inovação, mas de reestabelecimento do que existia.
Mostrei para ele que a prostituição em via pública que muitas vezes agrega droga, crime, homicídios que estava na rua Joaquim Sarmento, no início da rua Lobo D’Almada, na rua Itamaracá e na rua da Instalação ia se ampliar elo abandono do centro. E era previsível que ela iria subir para a rua Joaquim Nabuco, para a Ferreira Pena, para a Getúlio Vargas etc.
Vista desse modo, a prostituição parece mais um caso de discriminação…
Não se trata de um problema de discriminação, mas dos problemas que esse tipo de atividade atrai, o que contribui para a degradação social e patrimonial do espaço público.
Existiria hoje a formação de massa crítica para a compreensão da história do Amazonas e da Amazônia e mudar esse tipo de interpretação?
Ainda não o suficiente. Vou dar um exemplo: a gente reclama da destruição dos imóveis do começo do século 20, mas é essa mesma cidade que está destruindo as obras de Severiano Mário Porto dos anos 60 para cá, o Chapéu de Palha (cruzamento da rua Paraíba e rua Fortaleza, no bairro Adrianópolis) e o mesmo foi feito com suas casas e com o fórum Henock Reis e com o prédio da Sepror.
Quais fatores, então, preservam o largo?
Aqui [largo de São Sebastião] existia um consumidor X, hoje o consumidor é outro. A ocupação econômica e social é que qualifica os ambientes urbanos. Isso ocorreu sem exclusão de ninguém. O consultório do doutor Aristóteles [Alencar Filho], o kikão da esquina, a banca de venda de tacacá, o bar do Armando, banca de livros, e os residentes continuam aqui, com os seus lugares valorizados.
O processo tem que ser natural, para que a população possa reconhecer esse lugar como dela. Isso para que a população possa usufruir o espaço urbano por pertencimento e não o usufruir com modismo, porque o modismo logo passa.
Quais seriam as ações necessárias para dar continuidade ao projeto que deu certo?
Primeiro, vontade política. A vontade política traz o recurso e define o projeto, mas não pode ser um projeto mirabolante, nem um trabalho amador ou isolado.
Eu começaria pelo restabelecimento do que foi feito e que foi abandonado, que são os polos, depois, a interligação dos polos.
No meio disso, seriam necessárias leis municipais e estaduais de incentivo aos proprietários dos imóveis.
Imagine se 50% de R$ 1.000 por ano de IPTU empobreceria a prefeitura. Aí, o proprietário não recupera a fachada do imóvel e quando recupera faz do que vier na cabeça dele.
O senhor se sente frustrado ao constatar que o que foi iniciado na sua gestão não foi continuado ou que foi realizado está sem manutenção?
Não, não. Sinto-me entristecido, porque fiz o mais que poderia ser feito, com uma equipe formada por técnicos amazonense e de várias partes do mundo.
Quer saber de uma estupidez maior? Pintaram os monumentos do Tenreiro Aranha e do Álvaro Maia, esculpidos em bronze, com tinta spray dourada. Só não fizeram isso com o monumento dos portos, no largo de São Sebastião, por falta de coragem. Crime sem conserto até hoje.
Existe um crime maior que esse? E não se encontra uma autoridade que se responsabilize por isso. Nem um processo que penalize os culpados.
Bronze tem processo de conservação, lavagem com jato de areia; em Manaus temos profissionais para fazer restauros em papel, pedra, bronze etc. Essas pessoas foram afastadas da secretaria.
Aqui, no largo, no governo Amazonino Mendes, começamos com a ocupação cultural, restauramos o bar do Armando, a casa J.G., a casa Ivete Ibiapina, a galeria do largo e depois, no governo do Eduardo Braga e do Omar demos um avanço gigante nessa área patrimonial.
Depois, quando apresentei esse projeto para o Eduardo Braga, ele me disse: “Comece ontem”. E deu inteiro apoio para que a gente fizesse o largo. Ele vinha ver a obra. Naquele tempo, a atividade econômica era muito modesta, um imóvel custava R$ 300 mil, hoje, por aqui, um imóvel custa R$ 3 milhões. É isso que interessa para o proprietário do bem, para a população, para preservação e usufruto da população, para a preservação do ambiente.
Quando vim fazer a obra aqui no largo, conversei com os moradores. Fizemos um pacto condominial discutido previamente.
O Aristóteles me dizia: “Se o carro dos meus pacientes não parar na porta do consultório, eles não virão, porque são pessoas idosas, com problemas no coração, com dificuldade para abrir a porta do carro”.
Eu dizia a ele: “O teu paciente virá porque ele terá motivação”.
Tempos depois, ele me disse: “Robério, tu tinhas razão. O meu cliente marca a consulta e só entra depois de assistir ao show aí fora”.
Agora, tem que ser show de qualidade, com artistas populares e eruditos, com plateia organizada, com cadeiras disponíveis, hora para começar e acabar, limpeza, manutenção, segurança… Aí as pessoas vêm.
*Colaboração: BNC Amazonas
Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
