Para Marilene Corrêa, 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas tem potencial de ser um extenso diálogo de evolução da governança ambiental.

Diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Marilene Corrêa esteve em Belém para acompanhar a programação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30. Para a especialista, a Conferência foi um momento global de revisitação das políticas ambientais, envolvendo as comunidades tradicionais e a Ciência.

Corrêa representou a SBPC na programação da Casa da Ciência, espaço organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) dentro do Museu Paraense Emílio Goeldi. O espaço terá programações dedicadas à divulgação científica ao longo do mês de novembro.

Na inauguração do espaço, o MCTI e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) anunciaram três editais de investimento voltados para empresas e instituições de pesquisas que atuam com sustentabilidade no valor total de R$ 460 milhões – um para entidades localizadas na região da Amazônia Legal, outro para recuperação e preservação de acervos e o terceiro dedicado à criação de Fundos de Investimento em Bioeconomia e Sustentabilidade.

A diretora da SBPC destaca que tal anúncio e a participação ativa de entidades científicas na COP30, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a própria SBPC, reforçam o papel da Ciência na resolução dos desafios que a emergência climática traz. “É perceptível a condição [da COP30] de dar à Ciência a centralidade desse debate sobre mudança climática e, mais do que isso, de integrar cada vez mais o tema com o diálogo científico, para dar conta dos desafios que estão postos atualmente.”

Corrêa também ressalta a importância da COP30 ser realizada em Belém e como ela mobilizou a participação da população local.

“A Cúpula dos Povos, por exemplo, que está na Universidade Federal do Pará, tem um padrão de intensidade em que se discute não só o impacto das mudanças climáticas sobre as populações amazônicas, mas a justiça ambiental, o racismo ambiental e o fato de populações amazônicas isoladas – indígenas, quilombolas e aquelas tradicionalmente adaptadas – sofrerem inocentemente os impactos. Tudo por conta do capitalismo predatório, de uma violência lenta que ainda tem procedimentos coloniais sobre os povos, as populações e os territórios. Também por conta de um descompasso entre as políticas públicas dos direitos humanos no Brasil e o modo como elas se realizam na Amazônia. Você vê que as populações estão mais críticas, mais conscientes e mais mobilizadas também, e isso se deve ao fato de nós termos chamado para cá, para a Amazônia, esse debate global tão importante para o Brasil e para o mundo.”

Corrêa participou da mesa-redonda “Contribuições da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia para a Agenda de Ação do Brasil – Superando os Desafios de Mitigação e Adaptação Climática”, realizada no recém-inaugurado Museu das Amazônias, como parte da programação de um mutirão global organizado pela própria presidência da COP30. Para a especialista, a participação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA/Brasil) no debate reforça o caminho de protagonismo que a Ciência pode e deve cumprir.

“O que me deixou impactada foi a declaração da diretora executiva do OTCA, a ex-senadora Vanessa Graziotin. Segundo ela, todos os países da América do Sul, os países das nossas fronteiras territoriais, estão se ajustando e se aproximando cada vez mais do encaminhamento de demandas para a Ciência e Tecnologia do Brasil. Uma aproximação não só em termos de parcerias, de acordos e convênios, mas de agendas comuns, de iniciativas comuns, de firmação de protocolos de pesquisa para o envolvimento da Ciência nos procedimentos de mudança climática.”

Corrêa ressalta que ainda há muito no âmbito da COP30 – a programação e as articulações políticas seguiram até o dia 21 de novembro –, com conquistas positivas.

“De um modo geral, eu posso estar sendo otimista, mas a percepção que eu tenho é que a ciência brasileira sai fortalecida. As instituições científicas saem fortalecidas pelo novo dinamismo das autoridades que fazem a gestão da Ciência, Tecnologia e Inovação no mundo e pela intensidade do diálogo com as populações focais e suas demandas por soluções”, conclui.

*Colaboração – Jornal da Ciência.