Uma das metáforas mais interessantes e mais utilizadas pelo mundo afora, através dos tempos, é aquela que compara o ser humano a uma pedra.

Há, de fato, muito de ancestralidade, de mistério, de simbolismo e de verdade nessa equação. O corpo humano é constituído por vários elementos contidos na natureza, sobretudo de sais minerais: ferro, zinco, sódio, cromo, manganês, cálcio, fosfato, iodo, flúor, lítio, selênio, enxofre, cobre etc. Não é por outro motivo, penso, que os sábios da Bíblia disseram que Deus formou o homem do pó da terra (Gn. 2,7) e que, ao final dos trabalhos, o pó voltaria ao pó (Gn. 3,19), de onde veio.

A própria classificação da pré-história, aquele período de tempo que medeia entre o surgimento dos hominídeos e a escrita, dá testemunho dessa relação, eis que a divide nas Idades da Pedra Lascada (Paleolítico), da Pedra Polida (Neolítico) e dos Metais, demonstrando a nossa evolução através do domínio que passamos a ter desses elementos. Antes das primeiras habitações construídas, as cavernas abrigaram a espécie, que assim se protegia das intempéries, dos animais ferozes e, eventualmente, de bandos hostis. Para facilitar a caça, a realização de tarefas simples e também para autodefesa, as pedras, ainda disformes (lascadas), viraram instrumentos de uso comum. Adiante, aconteceu uma revolução tecnológica e as pedras aperfeiçoadas (polidas), tornaram-se artefatos de grande praticidade, época em que se deu, também, o desenvolvimento da cerâmica. Vale lembrar, ainda, que as primeiras expressões de arte, do subjetivismo humano, estão nas inscrições rupestres. Mais tarde, com a técnica de fundição dos metais, os artefatos desse material perderam um pouco de seu apelo. Era tempo do cobre, do estanho, do bronze e do ferro. Mas, de onde esses e outros metais, de regra, são extraídos? Das rochas, das pedras…

A pedra também exerceu um papel determinante na busca atávica do homem por Deus, de onde surgiu a noção de religião, ou seja, de conectar novamente um ao outro, como se o filho, a criatura, buscasse o pai, o Criador. O homem queria saber de onde veio e o seu destino final. Assim construiu, em pedras, recintos sagrados, como os primitivos menires e os dólmens de Stonehenge. De pedras, não custa lembrar, ergueram-se os grandes templos, como o mais famoso da antiguidade, o Templo de Salomão, e as catedrais da Idade Média, muitas delas ainda de pé.

A maioria dos povos, tirante aqueles que preferem cremá-los, elegeu as estruturas de pedra para receber o nosso corpo sem vida, de que são exemplos verdadeiras obras de arte, de arquitetura ou objetos de devoção: as pirâmides do Egito; o Taj Mahal, na Índia; a Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, onde Jesus ficou até a ressurreição; a Al-Masjid Na-Nabawi, o túmulo de Maomé… A pedra, portanto, está em nossa origem, em nossa essência, em nossa busca espiritual e até em nossa despedida deste mundo. Ela, porém, possui outros filosóficos eextraordinários significados, os quais merecem detida atenção, porquanto podem, se devidamente compreendidos e internalizados, contribuir, e muito, para a nossa edificação e para o nosso encaixe, como peças vivas e úteis, no projeto de construção de uma sociedade melhor.

Na Idade Média os alquimistas tinham como uma de suas principais metas a obtenção daquilo que chamavam de “pedra filosofal”, capaz de transformar qualquer metal em ouro, com a propriedade, ainda, de prolongar a vida de quem a detivesse. A tal respeito ficou famosa a figura de Nicolas Flamel, que teria feito a descoberta, passou a ser dono de grande fortuna, praticou a caridade e um belo dia desapareceu da face da terra sem deixar vestígios, só teriam ficado as mudas de roupa que usava quando foi visto pela última vez.

Isso virou uma obsessão para os materialistas daquela época. É claro, essa pedra nunca foi encontrada. Há, entretanto, outra explicação, bem mais plausível, filosoficamente falando. A lenda representaria a busca que um qualificado grupo de homens estaria empreendendo no sentido de passar de um estágio de consciência inferior, que seria o metal comum, para um estágio de consciência superior, que seria o metal nobre, o ouro, explicando-se dessa maneira a transmutação intelectiva, emocional e espiritual do indivíduo, cujo resultado seria uma pessoa melhor.

Muitas das escolas iniciáticas que vicejaram na Antiguidade e que experimentaram um ressurgimento nos primórdios da Idade Moderna, também fizeram, dentre outras, essa analogia entre a pedra e o homem, o homem inserido nas grutas, relacionado ao pó da terra, para instruí-lo sobre as coisas que vêm do Alto, para libertá-lo das amarras das necessidades sensoriais (comer, beber, dormir, reproduzir etc.), que o impedem de ver o invisível e, principalmente, para dar a ele diretivas morais, a fim de que, aperfeiçoado a partir de seu interior, pudesse colaborar exteriormente para o bem da humanidade. O objetivo dessa busca, gravada no pórtico do templo de Apolo, em Delfos, na Grécia do século IV a.C, é o autoconhecimento: “Conhece-te a ti mesmo”. Em outras palavras, a chave para uma vida plena e útil à sociedade consistiria em entender as próprias limitações, a nossa ignorância, os nossos defeitos, buscar também a prática das virtudes e, humildemente, nunca deixar de aprender, o que seria possível pela persuasão racional ou pela revelação mística.

Nesse sentido, herdeira e sintetizadora das milenares tradições, a Maçonaria é a mais assertiva dessas escolas. Basta dizer que a palavra maçom, em francês, designa o pedreiro… Benjamin Franklin, um dos pais da pátria americana, num de seus mais belos discursos, dizia que a entidade utiliza as ferramentas de construção porque acredita que a grandeza do homem pode ser medida, não pela fortuna que consiga amealhar, mas pelo seu caráter, sua justiça, sua tolerância, seu amor ao próximo, pela dedicação à causa da liberdade, pelo efeito positivo, enfim, que sua ação possa causar no mundo, donde se conclui que tudo isso pode ser trabalhado, como uma pedra. Tornar-se bom nesse processo e fazer o bem, para ele, seria a maneira sublime de glorificar a Deus.

Antonio Pereira, em lindo poema, publicado no livro “Essência”, em 1999, diz que não existe pedra no caminho que não possamos usar em nosso benefício: “O distraído, nela tropeçou/ o bruto a usou como projétil/ o empreendedor, usando-a, construiu/ o campônio, cansado da lida, dela fez assento/ Para os meninos foi brinquedo/Drummond a poetizou/ Davi matou Golias/ o artista concebeu a mais bela escultura/ Em todos os casos a diferença não era a pedra, mas o homem”. E eu ouso concluir, sim, o homem, a pedra viva…

A Terra, esta enorme pedra em que vivemos, não está, porém, sozinha no espaço.

Os planetas são de pedra. Ela é a única, entretanto, em nosso sistema solar, que possui vida comprovada. Vida esta, aliás, que foi trazida, segundo majoritária corrente científica, cujo pioneiro foi o professor espanhol Juan Oró, da Universidade de Houston, por meio de um meteoro congelado que, ao tocar o solo quente, deu origem aos mares e às águas doces, daí surgindo os primeiros organismos. O homem é o seu produto final.

Acontece que, ao dominar o planeta, o ser humano também foi, por assim dizer, a sua pior praga, seja porque não teve um predador natural; seja porque possui a capacidade única de modificar as condições ambientais de forma radical para adaptá- las aos seus interesses, nem sempre edificantes.

A coisa é tão séria que há alguns anos se discute a possibilidade, cada vez mais real, de a grande Gaia se tornar inabitável e de que caminhamos em passos céleres para esse destino, conforme demonstram Elizabeth Kolbert, no livro “A sexta extinção”; Jared Diamond, na obra “Colapso, como as sociedades escolhem o fracasso e o sucesso”; e o astrofísico Carl Sagan, em “Pálido ponto azul”, o qual dizia que a saída para nós seriam as viagens espaciais com o objetivo de colonizar novos planetas, já que tudo, aqui, em breve, estaria exaurido. Restariam, então, apenas duas alternativas: a extinção ou a fuga… Lembro, no entanto, que ainda não existe tecnologia suficiente para as jornadas interplanetárias sugeridas e nem se descobriu lugar no universo onde a vida humana seja possível. Logo…

Jesus, o mestre nazareno, um jovem construtor (do grego tekton) de almas, utilizou abundantemente a pedra para ilustrar os seus ensinamentos, como quando afirma que o homem sensato edificou a sua casa sobre a rocha, e ela permaneceu firme, mesmo diante das tempestades; ou quando impede o linchamento da adúltera; ou quando muda o nome de Simão para Cefas (Pedro, Petrus, Pedra) e lhe diz que, sobre essa pedra edificará a sua igreja; ou quando, por fim, em frente ao templo de pedra de Jerusalém, refere-se ao seu próprio corpo, que seria derrubado, mas que, em três dias seria reerguido, com o mistério de sua ressurreição. Ele propõe uma viagem, mas que esta viagem o homem a fizesse para dentro de si mesmo, escoimando-se de seus defeitos e buscando uma vida santa.

De tudo o que se viu, aqui e nos capítulos anteriores, deflui a conclusão de que somente esse “homem-pedra”, que procura o autoaperfeiçoamento, que desenvolve a sua dimensão espiritual, que ama as pessoas, que trabalha duro e honestamente, como preconizam as doutrinas morais que perpassaram os séculos, será capaz de reconstruir o mundo, em especial o mundo de hoje, desolado e perplexo pós- pandemia de Covid-19. Só esse homem burilado será capaz de reconstruir as pontes de fraternidade, detonadas pela cultura da violência e do ódio, pela intriga política também, tudo isso potencializado pelas redes sociais, que viraram arenas onde muitas pessoas expõem as trevas que carregam no peito. Só esse homem, assim renascido, conseguirá entender que é parte integrante da natureza, que ele vive numa pedra imensa, que está sendo destruída pelas suas ações e que ele precisa, urgentemente, com ela conviver em harmonia, antes que seja tarde demais. Só esse novo homem poderá, enfim, ver a luz e conduzir a humanidade a um outro destino, menos aterrador, desmentindo a sentença de Plautus, dramaturgo romano que viveu entre 254-184 a.C, segundo o qual o homem é o lobo do homem. É o rumo e a esperança que nos restam.

Por Júlio Antônio Lopes

Membro efetivo da Academia Amazonense de Letras (AAL), é o terceiro ocupante da cadeira 23, cujo patrono é Cruz e Sousa, eleito em 14 de dezembro de 2012, na sucessão de Joaquim de Alencar e Silva, e recebido pelo acadêmico José Bernardo Cabral. A Cadeira foi fundada por Nunes Pereira.