Não conheci os bondes. Não sou da geração terra-água-ar que tentava através de então prodigiosos inventos, descobrir regiões ignotas do planeta e explorá-las e posteriormente usufruir seus benefícios. Sou da geração sideral. Quando o homem, já esgotando sua capacidade inventiva na terra, ousou lançar-se ao Cosmos à procura de outros horizontes. Por isso não conheci os bondes…

Não conheci o romantismo de sua coreografia trílhica que exibia a técnica e a cadência de valsas comandadas pela trilha de ferro. Bondes, que a musicalidade europeizada do coração de Manaus início de século transformava em coretos sobre os trilhos. Ponto de encontro e de saudações e de brindes amistosos sob a batuta de leques e chapéus, de rendas e paletós, de camafeus e cravos na lapela…

Não conheci os bondes, porque estes foram guiados e desviados do itinerário “bela época”, pelas mãos autoritárias do progresso que insuflava às mentes as ideias das transformações sociais pós-guerra, que as elevariam aos níveis metropolitanos. Mas conheci seus trilhos…

Desnecessário ser, como eu, um adepto às escavações memorialistas, para conseguir encontrar aqui e ali, emergindo da camada efêmera do asfalto, seja numa esquina ou declive, seja em ruelas ou avenidas, essas raízes de aço, testemunhas vivas e rijas e rutilantes, de uma idade de Ouro.

Desses benditos donos de dias pacíficos, quando o homem não era o carcereiro de sua liberdade não, não são trilhos que rumam para o poente! Para o ontem. O que se foi. São verdades que irrompem de nosso chão. Que se corporificam à medida que constatamos nossa verdade social em ritmo de retrocesso, na trilha canibalesca da criminalidade. Não, não são os meus trilhos que rumam para o poente!

É o sistema de vida desta Manaus que leva a memória à reflexão e à avaliação dos motivos que a tornaram o cativeiro do medo “Escondam-se da horda da violência! Homens gigantes de progresso, pigmeus de paz”. Alardeiam nos íntimos os pregões da cautela. Não conheci os bondes, mas conheci seus trilhos musicais. Como eles, de ferro, só encontrei a sonoridade dos pontiagudos postes cor ferrugem fincados nos quatro cantos da Manaus-amiga.

Conheci postes de ferro que cantavam, tangidos com outros metais por mãos irmanadas em paz. E entoavam, em uníssono o “Feliz Ano Novo”. Soavam-me as notas celestiais. E sem serem anjos rebeldes, foram banidos e trocados pelo tão bélico espocar de foguetes. São nesses trilhos, nos meus incorruptíveis trilhos, que eu faço minha profissão de fé. Por isso, eu renuncio publicamente às sofisticadas máquinas eletrônicas, se estas me robotizam…

Renuncio a toda essa parafernália de trânsito e transeuntes, de ruídos de máquinas e sons de buzinas, a essa alienação coletiva se me tirarem a placidez e inofensibilidade dos verdadeiramente alienados que perambulavam pela Manaus-ontem.

Renuncio às festas de confraternização, se me tirarem a gratuita alegria dos sons dos postes de ferro. Renuncio a este odioso templário da humanidade que surge na forma de era moderna, e me faz beijar a imagem progressista, mas recolhe holocaustos em seu louvor.

Renuncio generosamente à ansiedade e à tensão do hoje se me tirarem, a título de progresso, os sonhos.

Renuncio sim, a viver numa cidade que não tenha trilhos de prata..

Por: Carmen Nóvoa

Membro efetivo da Academia Amazonense de Letras, segunda ocupante da Cadeira n.º 33, eleita 13 de maio de 1994, na sucessão de Epaminondas Correa Barahuna, foi recebida em 2 de dezembro de 1994, pelo acadêmico Oyama César Ituassu da Silva. Trata-se de Cadeira instituída em 1968, fundada por Epaminondas Barahuna.